São Paulo, 29 de Novembro de 2011
Carta aberta às professoras e aos professores membros da Congregação do Instituto de Relações Internacionais da USP e à comunidade universitária em geral.
O Ministério Público do Estado de São Paulo, por meio da Promotoria de Direitos Humanos, abriu inquérito para apurar a atuação da Polícia Militar no Conjunto Residencial da USP (CRUSP) no dia 8 de novembro de 2011.
Na ocasião, o efetivo da PM cercou os oito blocos de moradia do CRUSP e, segundo diversos relatos e vídeos disponíveis na internet, ocorreram abusos a direitos fundamentais dos estudantes e trabalhadores que vivem no conjunto. Além de serem impedidos, até sob a ameaça de tiros de bala de borracha se fosse preciso, de sair da área do CRUSP, a PM usou mão de grande quantidade gás lacrimogêneo em um local onde habitam, inclusive, dezenas de crianças.
É importante ressaltar que a ação foi concomitante à reintegração de posse da reitoria, mas em local sem nenhuma relação ao mandado expedido pela justiça. Não à toa, a PM nega, a despeito de todos os vídeos e denúncias, que tenha realizado qualquer ação no CRUSP.
O Centro Acadêmico Guimarães Rosa (GUIMA – USP) de Relações Internacionais lançou, prontamente, no dia de 10 novembro, uma nota repudiando clara e veementemente a ação da PM no CRUSP. Até onde se sabe, fomos o primeiro Centro Acadêmico a fazê-lo e o recente movimento do Ministério Público nos dá bastante certeza de que agimos corretamente.
Convém ressaltar que essa nota foi aprovada em uma assembleia de curso com cerca de ⅓ dos alunos matriculados de forma unânime. Entre os quase 100 estudantes que estiveram na assembleia, havia uma multiplicidade de opiniões em relação ao convênio USP-PM e a outros acontecimentos recentes da universidade. No entanto, fomos capazes de nos unirmos em torno do repúdio ao que ocorreu no CRUSP, que vitimou várias pessoas, incluindo alguns de nossos colegas de curso.
Isso foi possível por um motivo bastante simples: temos a convicção de que, independentemente da divergência de opiniões, quaisquer violações e abusos de autoridade não podem ser relativizados ou justificados. O compromisso real com os direitos humanos sobrepuja até as clivagens ideológicas.
A adoção de métodos mais radicais por estudantes ou outros entes da comunidade acadêmica é frequentemente utilizada como justificativa para o fechamento dos canais de diálogo e discussão. Contudo, a verdade é que há muito tempo tais canais tem-se mostrado fechados de maneira generalizada independentemente desses fatos. É chegada a hora de começarmos a mudar essa triste realidade. Não estamos pedindo nada mais que uma real abertura para o diálogo e disposição para fazermos o debate sério e corajoso que esta universidade hoje tanto prescinde.
Da mesma forma, não aceitamos que os eventos concernentes à invasão da reitoria sejam utilizados como atenuantes ou justificativas aos abusos policiais, haja visto todos os argumentos supracitados. A divisão de responsabilidades está clara para nós da mesma maneira que está para o Ministério Público. E, principalmente, está clara para a própria PM, a qual não pode admitir o que fez no CRUSP sem correr o risco de sofrer sanções legais, simplesmente porque a sua lamentável ação naquele dia não encontra nenhuma base jurídica, para não adentrar em questões éticas.
Nosso apelo é, portanto, para que a Congregação do IRI siga o exemplo dos alunos de Relações Internacionais e faça que o nosso Instituto, independentemente das grandes divergências que existem sobre o convênio USP-PM ou quaisquer outras questões, seja a primeira unidade de ensino da USP a repudiar de forma clara e veemente essas flagrantes violações de direitos humanos por parte de um agente estatal.
Não existe harmonia e unidade burocrática que mereçam prioridade à condenação da violência arbitrária; da mesma maneira que não existe divergência de ideias que seja mais importante do que a dignidade da pessoa humana. Caso nos furtemos da responsabilidade de denunciar e repudiar esse tipo de acontecimento, não estaremos sendo só incoerentes na defesa de valores básicos de qualquer sociedade democrática, como também abrindo um perigoso e inaceitável precedente.
O GUIMA conseguiu entender isso muito antes de qualquer ação do Ministério Público. Esperamos que toda a USP, começando pela Congregação do IRI, consiga agora ter o mesmo entendimento.
Centro Acadêmico Guimarães Rosa